.: Coração de Pescador
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[ 14 06 2010 ]
Couro da Tilápia tem valor
 
Depois de curtida, pele do peixe é usada na produção de bolsas e sapatos.

A tilápia é muito apreciada por ter carne leve e saborosa e também é muito procurada principalmente por não ter espinha. O que ainda não é aproveitado pela maioria dos cultivadores é o couro do peixe. Com um valor de U$S 100 por metro quadrado, o material pode ser utilizado na produção de bolsas, sapatos, pulseiras e outros produtos artesanais. Benedito José, dono de um pesque-pague e de uma fábrica produtora de carteiras escolares, e Augusto Neto, dono de um estabelecimento que cria e vende peixes, procuravam uma utilidade para comercializar esse material e, hoje, fazem a curtição, que é o processo preparatório do couro. Os dois são pioneiros no Distrito Federal neste setor.

Benedito, cansado de ter que jogar tanto couro fora, descobriu um lugar no Mato Grosso do Sul que oferecia o curso para a curtição. “Fiquei sabendo desse lugar lá no Pantanal. Fui por conta própria e fiquei durante uma semana. O custo foi de R$ 2 mil”, informa. Segundo ele, esse tipo de processo não é muito difundido no país e é quase desconhecido.

O maquinário para a produção custa aproximadamente R$ 11 mil. Sem poder pagar, Benedito deu um “jeitinho” para consegui-la. Ele conta que, quando os pescadores saíam para fumar, ele ia olhar como funcionava o sistema mecânico da máquina de processamento. “Não fumo e, quando eles iam fumar, ficava lá dentro olhando como a máquina funcionava, tentando entender o sistema. Fui de carro e, como são 1,6 mil quilômetros de distância, vim de lá até aqui pensando em como fazer uma máquina”, relata. De tanto pensar no projeto, Benedito conseguiu o que queria, a um custo bem inferior. “Gastei mil reais. É uma réplica”, brinca.

Augusto já trabalha no ramo há 30 anos. Hoje, na estrutura do seu estabelecimento, que fica no setor de mansões de Águas Claras, há cinco tanques com peixes variados. A procura pela tilápia é grande. “Dá para tirar mais ou menos 1,2 mil quilos de couro por semana”, garante. Ele revende peixes para pesque-pagues, restaurantes e consumidores individuais. O cliente leva o filé fresquinho. “Mato e corto na hora”, diz. Para ajudar a tirar o couro das tilápias, Augusto conta com a ajuda de quatro pessoas que fazem o trabalho manualmente. Como não possui o maquinário para preparo do couro, Benedito cede a máquina para o amigo.

Benedito, ou Bené como é conhecido, é professor aposentado. Depois que parou de dar aulas, decidiu abrir dois negócios. “Quem é trabalhador, não gosta de ficar parado. Tem que procurar alguma coisa para fazer”, diz Augusto, referindo-se ao amigo. Ele tem uma fábrica de carteiras escolares e um estabelecimento de lazer. “Tenho o pesque-pague há três anos”, afirma. Para abastecer o estabelecimento, Bené compra os peixes no criadouro do amigo. Em todo o processo, desde tirar o couro até o fim da curtição, cinco funcionários o ajudam. “Tiro em média 25 quilos em cada curtimento”.

A preparação demora e o custo é alto

Segundo Bené o processo é longo, caro e demorado. “Leva 36 horas para ficar pronto”, declara. Na empresa dele, o processo é natural. Ele não usa cromo, um componente químico que agride a natureza. “Uso tanina feita da casca de acácia, que é reflorestada”, explica. O primeiro passo é reidratar o material. “Normalmente, ele vem de salmoura. Então, precisamos fazer o remolho, a reidratação”, diz. Depois disso, é feita a calagem. Nesta etapa, as fibras são abertas para que o elemento da curtagem aja. “Bate por duas horas e fica de molho durante 12 horas”.
Depois do tempo de espera, todo o processo é feito ao contrário, a desencalagem. O próximo passo é a purga e o piquel. “Na purga, bate outra vez no fulão. O piquel é o desengraxe, para tirar o excesso de gordura”. Segundo ele, o mau cheiro não está nem na carne nem no couro, e sim na gordura. Até aí, o curtimento está pronto.

No processo final, o couro sofre novamente um engraxe. “Mas é com óleo vegetal e animal para dar maciez”, explica. Por fim, são feitos os tingimentos, com anelina, e depois a secagem.

COMÉRCIO
O couro pronto pode ser usado para fazer bolsas, cintos, jaquetas, bijuterias, chapéus, sapatos, pulseiras e carteiras. É resistente e, portanto, muito valorizado. No comércio, um brinco, por exemplo, pode ser vendido pelo fabricante por R$ 20. “Bolsas são vendidas por R$ 90 e revendidas numa boutique por R$ 300”, argumenta Bené.
Bené pretende entrar em contato com artesãos do Distrito Federal para ser fornecedor do produto. “Também quero produzir esses materiais. Já procurei um curso no Sebrae que ensine artesanato”, conta. Ele diz ainda que o mercado aqui em Brasília é bom. “Há muitos turistas. Vou entrar em contato com artesãos que vendem na torre e no aeroporto”, finaliza.

Fonte: Walquíria Cassiano - Tribuna do Brasil

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