No final da década de 70, um grupo de estudantes de Oceanologia da Universidade Federal do Rio Grande (Furg) teve uma iniciativa que tomou grandes proporções. Depois de 30 anos, aproximadamente 10 milhões de filhotes de tartarugas marinhas nasceram sob proteção do Projeto Tamar. Ontem pela manhã, os idealizadores do projeto palestram no 4º Congresso Brasileiro de Oceanografia (CBO 2010), que encerra hoje.
De acordo com a presidente da Fundação Pró-Tamar, Neca Marcovaldi, durante o período de férias da faculdade, os então estudantes faziam expedições para praias e ilhas distantes. “Nós trazíamos material para o Museu Oceanográfico. O diretor do museu na época, Eliezer de Carvalho Rios, via como uma possibilidade de melhorar o acervo. Éramos jovens a fim de explorar novas oportunidades”, lembrou.
Segundo ela, durante um encontro no exterior foi discutida a conservação ambiental e o Brasil não tinha um programa para apresentar. Como as tartarugas marinhas são animais migratórios, a equipe do órgão responsável pelo meio ambiente na época, o IBDF, identificou que as tartarugas seriam uma prioridade para a conservação. “Quando eles voltaram do encontro, lembraram que nós tínhamos feito uma denúncia de matança de tartarugas no Atol das Rocas, no Rio Grande do Norte”, contou. Surgiu então o projeto Tamar, que durante os primeiros dois anos funcionou como um embrião, na busca de informações sobre as tartarugas.
Hoje, de acordo com o coordenador Guy Marcovaldi, o projeto Tamar/ICMBio está presente em nove estados brasileiros - Bahia, Sergipe, Pernambuco (Fernando de Noronha), Rio Grande do Norte (Atol das Rocas), Ceará, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina -, protegendo cerca de 1.100 quilômetros de praias, através de 23 bases de pesquisa mantidas em áreas de alimentação, desova, crescimento e descanso desses animais, no litoral e nas ilhas oceânicas. O palestrante salientou o fato de que para cada tartaruga apresentada em tanque, nos centros de visitação, outras 100 mil são salvas. “É com os animais mantidos em tanques que encantamos as pessoas e fazemos bem para essas tartarugas”.
Além da proteção às tartarugas, o projeto busca o desenvolvimento das comunidades costeiras como forma de amenizar o impacto da ação humana para as tartarugas. Entre os prêmios recebidos durante os 30 anos de atuação estão Prêmio Science for Conservation em 1994, Heroes of the Planet em 1998 e Unesco em 2003. O projeto é patrocinado pela Petrobras.
Após 30 anos, o Projeto Tamar atingiu uma abrangência inesperada. “Não tínhamos ideia de que o projeto iria tomar essa dimensão. Falávamos assim ‘Vamos proteger só mais esse pedacinho’. Completar 30 anos é o maior barato”, avaliou Neca Marcovaldi.
Segundo ela, das cinco espécies de tartarugas protegidas pelo projeto, três estão no início da recuperação. “Já estamos colhendo os frutos desse trabalho. Ao mesmo tempo que o projeto alcança esse marco, 30 anos é uma geração de tartaruga. Para nós é um tempo enorme, mas para a perspectiva de um animal de longa vida é apenas o começo”, ressaltou.
Entre os desafios e perspectivas para o futuro do projeto, Neca destacou o aumento da pesca, o desenvolvimento costeiro e as mudança climáticas como ameaças que já existiam, mas que com o tempo ganham uma intensidade diferente. O projeto Tamar mantém Centros de Visitantes funcionando como núcleos de sensibilização e educação ambiental, além de oferecer lazer, entretenimento e serviços.